Reflexão sobre nossa totalidade

Procurei um texto que representasse o que eu pensei trabalhar nesse encontro, mas veja que absurdo: por qual motivo procurar fora o que dentro está? Pensei então que talvez me fosse dado a oportunidade de organizar meu pensamento e expor em texto antes da fala.

Parece um movimento possível, provável e natural. Entretanto dois questionamentos me tomaram a consciência: conseguirei transpor em palavras o que acredito ser essencial para nosso encontro? E caso consiga, a ideia era trabalhar com o que sei sobre mim ou o que sinto?

Há um desconforto em pautar um encontro naquilo que sinto e não naquilo que sei, porém devo te lembrar que foi exatamente esse convite que te fiz, conhecer as salas de uma casa que você passa em frente diariamente. Você sabe a cor da porta, das paredes e a quantidade de janelas, pode até saber a metragem, a área total, também é fácil distinguir se toda a sua extensão foi construída no térreo ou em andares. Porém saber tudo isso te impede de conhecer outros tantos lugares ali dentro, as pessoas que moram, suas rotinas, os sons e os cheiros que invadem aquele espaço, as sensações provocadas…

Conhecer não é suficiente!

A experiência se sobrepõe a razão incalculáveis vezes, na paixão, no medo, na dor, na tristeza. “Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou” dizia Jung. Quanto de sensibilidade devo ter para saber o quanto se realizou em mim? O quanto sou capaz de deixar o barco a deriva e acreditar que as ondas me levarão para o lugar adequado?

Então posso me perguntar: o certo é esse? Devo abandonar qualquer ação racional e viver de acordo com os dias? Penso que a própria pergunta guarda uma armadilha perigosa: o certo é subjetivo e tudo tende ao equilíbrio. Trabalhar exaustivamente com a razão irá trazer um contrapeso inconsciente, e vice-e-versa.

Jung prossegue “conversando” comigo:  “Tudo o que nele (no inconsciente) repousa aspira a tornar-se acontecimento, e a personalidade, por seu lado, quer evoluir a partir de suas condições inconscientes e experimentar-se como totalidade”. Demorei muito a recusar que a razão é suficiente para viver a totalidade, e que o inconsciente é um espaço incrivelmente amplo para se conhecer.

Recentemente vi uma animação da Disney chamada Soul, em um determinado momento uma cantora famosa conta um conto que dizia mais ou menos assim: um pequeno peixe procurou um sábio e expressou todo o seu desejo de conhecer o oceano, o sábio respirou fundo e o disse: ai está! Tudo ao seu redor é o oceano. O peixe irritado replicou: Isso é só água! Eu quero conhecer O Oceano!

Mergulhado em mim mesmo sou convidado a abandonar o que penso que sou, para quem sabe, me aproximar do que sou! Outro Carl que não o Jung dizia: “Curioso Paradoxo: Quando me aceito como sou, posso então mudar” Carl Rogers.

Quem me dera que apenas as minhas costas doessem, que apenas as minhas pernas cansassem, que somente os meus ombros pesassem e que minha mente continuasse na certeza que está no caminho mais adequado para si mesma.

Todos nós acreditamos em uma vida futura! Caso discorde de mim basta se perguntar sobre o dia de amanhã. Quais serão suas atividades? Compromissos? Haverá louça para lavar? Banho para tomar? Dentes para escovar? Então algo em você acredita na vida futura que você viverá amanhã. Absolutamente nada nos garante que tudo isso estará no amanhã, o criamos antecipadamente para ter pequenas ilhas que apoiem os nossos pés nesse oceano desconhecido, enquanto nos equilibramos empurrados de um lado para o outro por chuvas e ventanias.

Estou compartilhando contigo esse texto antecipadamente, para que você possa desistir de participar do nosso encontro, ou alimentar mais ainda a esperança de um dia ser pleno, total e completo.

Eu não tenho nenhuma receita e com toda certeza ainda não atingi esse ponto, mas espero que minha caminhada possa ser compartilhada contigo, pois não vejo sentido no caminhar sozinho e apenas para mim.

 

Que brilhe sempre a nossa luz

Adamo Brasil

11/03/2021

4 comentários sobre “Reflexão sobre nossa totalidade

  1. interessante o filme “soul”, que em sua tradução quer dizer “alma”, e em português, “sou”, é utilizado quando queremos nos nomear. falando por nossa “alma/ânima”. equilibrar os nossos sonhos, e saber quais deles são de verdade “nossos”, e não impostos pela necessidade/sociedade/familia/situação. me fez pensar sobre esse equilíbrio da gangorra… não importa o que se coloque em um lado o no outro. o verdadeiro ponto de equilíbrio da gangorra, é o “meio” dela. o trabalho é difícil, é diário, mas é bom contar com a ajuda de quem pode auxiliar ensinando a estudar “o vento”, o “oceano”.
    gratidão Adamo.

  2. Que profundo seu texto, me fez refletir.Analogia da casa realmente nos fala apenas do que vemos do lado de fora, nos esquecendo às vezes de que o principal está dentro. Gratidão por compartilhar conosco seus conhecimentos.

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