Onde fica a borda?

Quais coisas mais simples me influenciaram na infância?

Morar em um bairro afastado, ter aquela disposição dos móveis no meu quarto, comer aquele tipo de comida, ver aqueles programas na TV, possuir aquele grupo de amigos, vestir aquele tipo de roupa.

Como existem possibilidades!
Quantas variáveis para se investigar!
Mas enquanto escrevia saltou-me uma ideia, um grande questionamento, algo que me roubou a atenção: tudo isso me influenciou ou em algum grau fiz essas escolhas como consequência de quem sou?

Estar cheio de si ao ponto de transbordar em palavras, comportamentos, pensamentos e sentimentos é um dos meus objetivos atuais, afinal a espontaneidade é algo que prezo bastante, o grande conflito é que com a mente veloz que tenho tudo me empurra a pensar, e o pensamento me envia para lugares inimagináveis, possibilidades infinitas, e em algum momento desejo que a linearidade me dominasse, pareceria mais simples parar de enxergar as inúmeras possibilidades de deixar a água fluir pelos meus dedos e cair no sentimento de incompetência. Deixei de aproveitar a sensação agradável de refrescância, troquei-a por um estado absorto que modificou profundamente a experiência, só continuo no dilema: não aproveitei por estar com a atenção ocupada, ou estava com a atenção ocupada como consequência do que sou?

Textos que mais perguntam do que respondem não parecem textos, e continua minha dualidade: escrevo assim por não conseguir fazer diferente, ou não faço diferente por consequência de quem sou?

Fiquemos com essas reflexões, ou deixemos elas de lado, o fato é que sempre haverá um limiar, uma barreira do que é explicável, observável e o que apenas possível sentir, como o ar quente que sopra de uma caldeira, é impossível entrar ali sem se machucar gravemente, mas sentimos todos os seus efeitos em apenas nos aproximarmos.
A.B.

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